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2004-01-04

 


Morri

Hoje morri. Não se deve morrer numa emergência e eu ia numa emergência: fugia de mim. Sempre me disseram que, para onde quer que eu fosse, seria lá que eu estaria ... e eu ia à procura. À procura de mim! Perdera-me durante a tarde ao som de palavras que não queria ouvir nem acreditar. Com as mãos tapei os ouvidos e com força cerrei os olhos, mas as palavras entravam, entravam, entravam, inundavam e imundavam.

Entrei no carro e fugi, fugi depressa! Sempre resultou fugir! Por que não resultaria desta vez? Sempre fugi até me sentir bem distante, até concluir que não precisava fugir mais, até concluir que nunca se sai do sítio de onde se partiu antes de uma fuga.

Hoje não tive tempo. A respiração descompassada e a estrada estranhamente mais recta do que o habitual acelerou-me os pensamentos e eu tentava, sem êxito, encontrar pelo menos, uma das pontas daquele emaranhado de palavras e recordações. Quando a recta deixou de ser recta, eu parei e fez-se silêncio. Não conseguia abrir os olhos nem movimentar-me. Senti frio, muito frio. Por fim adormeci.

Acordei quando, vozes desconhecidas, repetiam o meu nome. Eu tentava, em vão, responder-lhes mas as palavras não saíam. Eles falavam entre si como se me conhecessem. Pela azáfama, apercebi-me de que estava numa sala de hospital. Os médicos tentavam reanimar uma pessoa ligada a inúmeros tubos que, cada um e por sua vez, estavam ligados a máquinas que soltavam sinais sonoros descompassados. As luzes da sala ora se apagavam - e eu deixava de os ver e ouvir -, ora se acendiam – e então eu tentava, numa voz muda, perguntar como sair dali.

Aproximei-me dos médicos e espreitei a vítima. Tinha a cara tapada mas as mãos ... as mãos pareceram-me tão familiares. Senti uma vontade enorme de voltar para casa, de falar com algumas pessoas, de agradecer e de pedir perdão. Senti que o tempo escasseava e, de novo, senti que tinha pressa, muita pressa, mas, desta vez, não era uma pressa de fugir. Tentava tão somente encontrar pessoas, algumas pessoas...urgentemente.

Fechei os olhos e respirei fundo. Quando os abri chovia copiosamente e ali, mesmo à minha frente, estavam as pessoas que eu procurava. Eram poucas, muito poucas. Umas doze, e choravam. Alguém morrera.

Senti de novo muito frio e, temendo o pior, aproximei-me de cada uma delas e segredei-lhes ao ouvido o quando as amava e pedi-lhes perdão pelas vezes em que falhei.

Senti que me despedia.

Chorei e deixei-as a sós.

Filomena Gonçalves

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