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2004-01-07

 


No jogo do amor, ciúme é cartão amarelo

(para ler com a voz de Jorge Perestrelo ou outro comentador de futebol
igualmente emotivo)


Vai ser dado inicio à partida, a figura de preto leva o crucifixo aos lábios e apita: Começou o jogo !
Eis que surge a noiva, veste branco, número 10 nas costas. Vai avançando pela faixa central, passa por um convidado, por outro e ainda por outro, aproxima-se do altar onde o noivo a espera equipado de cinzento, faixa vermelha à cintura, sorri e vira-se para ela. O fair play é evidente nestes momentos inicias do jogo e o árbitro sorri satisfeito. A multidão aplaude e brinda os jogadores com bagos de arroz enquanto entoam cânticos de incentivo a ambas as equipas.

É o noivo quem conduz agora, evita um carro, dirige-se para a lua de mel e marcam-se diversos golos na primeira noite do desafio.

O jogo vai decorrendo calmamente, mas é o noivo quem mantém a posse da bola.
A noiva irrita-se, vai por trás e aplica a rasteira do ciúme. Minha nossa senhora, foi feio e o noivo estatela-se no relvado. Levanta-se de novo, a bola está em jogo e os lances duros sucedem-se parte a parte e o arbitro é obrigado a intervir mandando as equipas para os balneários. O público divide-se incentivando uma ou outra equipa.

Nos balneários, um banho comum faz esquecer as jogadas duras deixando aqui e além apenas vagas marcas de nódoas negras...

Mas reentram as equipas no relvado, trazem mais dois jogadores gatinhando, a noiva passa mais tempo à baliza e o noivo não se cansa de pressionar. A noiva passa ao contra-ataque, finta o noivo, dirige-se a uma baliza adversária e espeta uma facadinha no matrimónio. O ciúme sobe à cara do noivo que discute com o árbitro pedindo um cartão de vermelho para a noiva.
O árbitro mostra-lhe um amarelo e não aceita, este árbitro de negro e crucifixo pendurado diz que o jogo é para jogar até ao fim.

Os dois jogadores engalfinham-se num jogo feio e é o noivo quem chuta para fora. A noiva faz o arremesso pela linha lateral directamente para a cara do noivo. As pernas começam a ficar pesadas e os jogadores já não correm como antes. A lama assentou-lhes nos ombros e a multidão começa a abandonar o recinto Cansados ambos olham para o banco dos suplentes mas decidem-se a ir a prolongamento.

Olham-se nos olhos, todo o estádio está em silêncio, e cada um marca um auto-golo como forma de pedir desculpa pelos lances mais duros da partida. Uma gigantesca onda é feita nas bancadas e é o delírio no estádio, meus senhores.

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