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2004-01-07

 
O POST DO BICHINHO

Mão amiga fez chegar a nossa casa um livro intítulado "não te deixarei morrer, David Crockett"... terminei hoje a sua leitura, por entre muitas nozes...e passas (isto é segredo!) e gostei muito de uma short-story, que me fez desejar partir de imediato para o deserto...mas a Gralha lá fez a razão prevalecer...aqui ficam algumas linhas...

(...) Mas o deserto raras vezes é aquela coisa sempre poética e deslumbrante do filme de Bertolucci, com dunas cor-de-rosa e vermelhas ao pôr do sol. A maior parte das vezes, longe das caravanas de camelos para os turistas da «photo opportunity», é um terreno áspero, duro, feito de calhaus e terra escurecida, sem árvores, sem dunas, sem pássaros, sem água nem rios, sem nenhum sinal de vida - como uma lua debaixo do Sol. A progressão lenta e massacrante, a paisagem é monótona e triste, as jornadas são esgotantes e vazias de acontecimentos: tudo nos faz desesperar por um acampamento ao fim do dia, dois litros de água para limpar o pó da cara e da cabeça, uma lareira, uma sopa quente, uma conversa que engane as saudades de casa.

Porquê, então, este desejo veemente de deserto, esta vontade de nada, de vazio absoluto, esta viagem ao mais fundo de nós mesmos - lá, onde não resta sombra de arrogância, do orgulho, e da sabedoria que julgamos ter? Talvez (vou enfim arriscar uma resposta...) porque ali estamos a sós com o Absoluto, ali, se os Deuses existem, é o mais próximo deles que poderemos estar, porque ali reside, mesmo que jamais o decifremos, a chave para o eterno enigma da Criação. É ali que começa a vida, é o nosso útero, o princípio de todas as coisas. Só então ficamos a saber que tudo o resto são circunstâncias."

Miguel Sousa Tavares

"Um Desejo de Nada"

in "não te deixarei morrer, David Crockett"

Ed. Oficina do Livro

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