2004-01-08
"OS (DES)CONFORTÁVEIS CIÚMES"
(Dedico este conto a todos os Faroleiros)
Chovia naquele dia e Paul reparou nas crianças brincando nas escadas com Mr.Boones, depois surgiu Siri, muito séria, solicitando um pouco menos de barulho, e todos acataram o pedido. Os seus olhares cruzaram-se e ele fez-lhe sinal com o dedo, indicando o relógio, que estava na hora de partir para mais uma leitura de "Oracle Night".
Depois de ele sair, Siri passou pela sala de trabalho do marido e reparou nas folhas brancas de formato A4 deixadas em cima da mesa, e não resistiu a olhar para o título.."Route 66"...acabando por sentir os (des)confortáveis ciúmes. Sorriu para si mesma, com a curiosidade a andar dentro de si e chamou os filhos para lancharem.
Entretanto na Galeria de Paula Cooper, situada na West Twenty-first Street, terminavam-se os preparativos para receber Paul Auster para mais uma das suas leituras. De forma cadenciada, os ouvintes iam chegando, para ocupar os escassos 160 lugares disponíveis. Por fim o homem do fato cinzento, mas sem gravata, chegou. Aproximou-se da mesa, com um livro na mão, sentou-se e bebeu um pouco de água. A intensidade da luz diminuíu junto do público e uma voz, de origem desconhecida informou que a leitura seria feita em quatro períodos de uma hora, com intervalo de dez minutos para autógrafos. Paul olhou para o livro de capa azul, abriu-o lentamente e iniciou a leitura na primeira pessoa...no público uns seguiam o texto através do exemplar trazido de casa, outros olhavam o escritor e alguns até tiravam notas.
Quando chegou o primeiro intervalo, algumas pessoas dirigiram-se ao pequeno bar e outros esperaram por Paul na pequena sala, junto das escadas que davam acesso à cave, onde estava exposta uma exposição de Edward Hooper, para solicitarem o autógrafo tão desejado do seu autor preferido.
Na segunda pausa das leituras de "Oracle Night", um cavalheiro de smoking e chapéu alto, acompanhado de um jovem, dirigiu-se na direcção de Paul, de livro na mão e sorriso nos lábios, mas uma outra personagem acabou por lhe passar à frente. Era David Zimmer com o seu olhar triste e profundas olheiras, que estendia o livro ao autor. Paul reconheceu o seu personagem de "o Livro das Ilusões" e escreveu, escreveu, escreveu... Atrás dele, Mr. Vertigo fervia em lume brando, por se ter deixado antecipar...e por fim teve que ser o Rapaz Maravilha a entregar o exemplar a Paul, porque Mr.Vertigo estava estático, com os olhos colados em Zimmer...acompanhando o seu regresso ao pequeno auditório.
E a leitura de "Oracle Night" continuou, mas Mr.Vertigo, desligara-se completamente do assunto que o levara à Galeria e tentava ver o rosto da jovem acompanhante de David Zimmer. Quando as últimas palavras do livro saíram dos lábios de Paul Auster, uma chuva de palmas, quase da mesma intensidade da existente nas ruas, caiu no auditório. O autor agradeceu e desapareceu, algures....
Na rua o trânsito estava compacto e a chuva não diminuía de intensidade. Mr. Vertigo, olhava calmamente em redor, enquanto aguardava uma aberta para se escapulir com o Rapaz Maravilha daquele temporal. De súbito um Chevy vermelho parou...e o rosto de David Zimmer, como uma ilusão, surgiu:
- O Paul disse para vos dar boleia até Brooklin.
Sem darem qualquer resposta, Mr. Vertigo e o Rapaz Maravilha entraram no carro...e por fim, depois de o Chevy iniciar o seu trajecto, o miúdo perguntou:
- o Mr.Boones está lá em casa?
- Claro, meu querido - respondeu uma voz feminina.
E foi nesse preciso momento que Mr.Vertigo reconheceu Anne Blume e sentiu os (des)confortáveis ciúmes.
(Dedico este conto a todos os Faroleiros)
Chovia naquele dia e Paul reparou nas crianças brincando nas escadas com Mr.Boones, depois surgiu Siri, muito séria, solicitando um pouco menos de barulho, e todos acataram o pedido. Os seus olhares cruzaram-se e ele fez-lhe sinal com o dedo, indicando o relógio, que estava na hora de partir para mais uma leitura de "Oracle Night".
Depois de ele sair, Siri passou pela sala de trabalho do marido e reparou nas folhas brancas de formato A4 deixadas em cima da mesa, e não resistiu a olhar para o título.."Route 66"...acabando por sentir os (des)confortáveis ciúmes. Sorriu para si mesma, com a curiosidade a andar dentro de si e chamou os filhos para lancharem.
Entretanto na Galeria de Paula Cooper, situada na West Twenty-first Street, terminavam-se os preparativos para receber Paul Auster para mais uma das suas leituras. De forma cadenciada, os ouvintes iam chegando, para ocupar os escassos 160 lugares disponíveis. Por fim o homem do fato cinzento, mas sem gravata, chegou. Aproximou-se da mesa, com um livro na mão, sentou-se e bebeu um pouco de água. A intensidade da luz diminuíu junto do público e uma voz, de origem desconhecida informou que a leitura seria feita em quatro períodos de uma hora, com intervalo de dez minutos para autógrafos. Paul olhou para o livro de capa azul, abriu-o lentamente e iniciou a leitura na primeira pessoa...no público uns seguiam o texto através do exemplar trazido de casa, outros olhavam o escritor e alguns até tiravam notas.
Quando chegou o primeiro intervalo, algumas pessoas dirigiram-se ao pequeno bar e outros esperaram por Paul na pequena sala, junto das escadas que davam acesso à cave, onde estava exposta uma exposição de Edward Hooper, para solicitarem o autógrafo tão desejado do seu autor preferido.
Na segunda pausa das leituras de "Oracle Night", um cavalheiro de smoking e chapéu alto, acompanhado de um jovem, dirigiu-se na direcção de Paul, de livro na mão e sorriso nos lábios, mas uma outra personagem acabou por lhe passar à frente. Era David Zimmer com o seu olhar triste e profundas olheiras, que estendia o livro ao autor. Paul reconheceu o seu personagem de "o Livro das Ilusões" e escreveu, escreveu, escreveu... Atrás dele, Mr. Vertigo fervia em lume brando, por se ter deixado antecipar...e por fim teve que ser o Rapaz Maravilha a entregar o exemplar a Paul, porque Mr.Vertigo estava estático, com os olhos colados em Zimmer...acompanhando o seu regresso ao pequeno auditório.
E a leitura de "Oracle Night" continuou, mas Mr.Vertigo, desligara-se completamente do assunto que o levara à Galeria e tentava ver o rosto da jovem acompanhante de David Zimmer. Quando as últimas palavras do livro saíram dos lábios de Paul Auster, uma chuva de palmas, quase da mesma intensidade da existente nas ruas, caiu no auditório. O autor agradeceu e desapareceu, algures....
Na rua o trânsito estava compacto e a chuva não diminuía de intensidade. Mr. Vertigo, olhava calmamente em redor, enquanto aguardava uma aberta para se escapulir com o Rapaz Maravilha daquele temporal. De súbito um Chevy vermelho parou...e o rosto de David Zimmer, como uma ilusão, surgiu:
- O Paul disse para vos dar boleia até Brooklin.
Sem darem qualquer resposta, Mr. Vertigo e o Rapaz Maravilha entraram no carro...e por fim, depois de o Chevy iniciar o seu trajecto, o miúdo perguntou:
- o Mr.Boones está lá em casa?
- Claro, meu querido - respondeu uma voz feminina.
E foi nesse preciso momento que Mr.Vertigo reconheceu Anne Blume e sentiu os (des)confortáveis ciúmes.