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2004-01-21

 
Participação especial do avatares de um desejo

Às vezes apetece resgatar certas ideias do bafio de dicotomias antigas, esgotadas. A cidade tem sido vítima dessa dolorosa contraposição com o desenho romântico de um imaginário pré-moderno. Embora muitos a cantem em louvor, a cidade será sempre vítima de uma romantização do rural. Mas, para mim, a única coisa faz sentido contrapor à cidade é o meu quarto. É este o dualismo que realmente me apreende, o meu quarto de um lado, e do outro, a “minha cidade”. Ou as cidades da minha imaginação.

Estou convencido que o mais significativo trânsito de vidas se dá entre quartos semi-adormecidos e o burburinho das urbes. Do único trânsito importante nunca falam as rádios matutinas!

Ela anoiteceu só na sua cama cerca de 7000 noites (tem para aí 20 anos), e já há anos que, nas ruas, cafés, escolas, bares, bibliotecas, cinemas, vai procurando, como quem não quer a coisa, uma alma que a enlace, uma alma que ela queira enlaçar. Até que telefona uma amiga e diz as duas palavras fatais: “É Ele!”. Seguem-se uns meses de profundo encanto. De mão dada correm as avenidas, encostam-se nos jardins, ficam-se numa esplanada com vista para os semáforos. Nesses caminhos os sítios íntimos de cada um vão sendo partilhados, e pelo meio dessas topografias de afecto há aquilo a que Marc Augé chama “não-lugares”. Lugares de passagem onde não se assentam memórias, onde as identidades não se demoram. Há por isso várias cidades, há muitos lugares e não-lugares numa só cidade; os espaços que nós colonizamos são os nossos lugares, os nossos pontos de passagem serão os lugares de outrem.

Calcorrearam os recantos, ambos ensinaram os sítios amados de um e de outro, ambos conheceram novos lugares das suas cidades, e assim andaram colonizando a cidade com seu amor. Até que um dia ela não anoiteceu só no seu quarto, a cama dela e o seu corpo deram guarida a mais uma alma. O quarto dela, a morada primeira, a placa giratória de tantos ensejos, a cama das 7087 noites, conhecia agora um anoitecer a dois. Muitas noites haveriam de se seguir, muitas noites também visitou ela o quarto dele. Um dia acabaram. Cada um acordou num quarto desfigurado por memórias. Os quartos pediam cidade, pediam uma fuga. Mas para onde, se os lugares já estavam quase todos tomados pelo passado? Durante algum tempo ambos fugiram da cidade antiga, sozinhos lá iam perseguindo novos lugares, novas gentes, como quem viaja dentro das muralhas. Na verdade, pouco mais fizeram que deambular nas ruínas, tropeçando nos despojos de uma antiga colonização. Não duraria. De novo o quarto voltaria a ser um espaço de solitário conforto; laboriosas, as apropriações inventivas tratariam de criar outra cidade.

Por vezes, quando passeio por aí, olho para uma viela e fico-me a pensar nas cidades de que terá feito parte. Aconselho-me cuidado para não tropeçar nas minhas.

Bruno Martins



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