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2004-05-05

 


Quase gosto da vida que tenho - Pedro Paixão

Este novo livro de Pedro Paixão junta dois registos diferentes a que o autor já nos habituou. Entre os diversos contos, alguns extremamente curtos, que o compõem, encontram-se contos que me fazem lembrar as "Doze noites em Jerusalém" (onde a problemática judaica e os sentimentos que levanta no autor são cruciais) e as habituais crónicas de um cotidiano cheio de encontros e desencontros, de amores e de desencantos e, acima de tudo, de solidão.

É, assim, um livro sem fio condutor, mas em que essa ausência em nada afecta a qualidade dos escritos, pois como diz Pedro Paixão "são estilhaços de um mundo em fogo. só uma capa os protege".

EXCERTO

Tenho de continuar a aturar o adolescente em mim. Tenho de continuar a aturar todos os que estão em mim, porque nunca tive a coragem de crescer abandonando quem fui. De sufocar com as minhas mãos os que devia deixar para trás, moribundos. Fui acumulando quem sou. Por isso esses gritos desesperados em linguagem adolescente. E até coisas mais infantis. Fui-me conservando a mim próprio pelo respeito de nunca saber quem era, o que seria, de ignorar o que se estava a passar, o que por mim passava, aquilo a que chamamos tão inconscientemente vida. Fiquei suspenso nesse espanto, tal e qual como agora, olhando-me, sem conseguir dizer a palavra decisiva que me fizesse subir por uma escada que me levasse mais alto e me fizesse definitivamente ser outro. Sou quem fui, quem serei, o mesmo adulto enquanto criança, a mesma criança enquanto adulto e a aparência física é só o estranho disfarce que tem de ser.

Por vezes encontramo-nos todos numa roda e o mais velho tem certamente mais experiência mas é nitidamente menos inteligente e sofre de falhas de memória.

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