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2004-12-25

 
O contentor

Um grito irrompeu na noite fria logo seguido por uns passos aflitos.

Gaspar levantou os olhos e viu o Zé a correr para a porta do contentor. Lá dentro estava a Maria que ele abrigara às escondidas do encarregado da obra, grávida de fim de tempo. Um gesto solidário como esse, era comum no José, tanto mais que Maria era ainda muito nova, quase uma criança. Mas a verdade é que, apesar de ele o negar, todo o pessoal da obra desconfiava que ele era o pai da criança.

Gaspar suspende o trabalho e endireita as costas. A porta do contentor abre-se deixando sair uma janela de luz para a terra revolvida. José entra e vem à porta abrindo os braços, mas um novo grito impede-o de dizer seja o que for e volta a entrar no contentor.

Gaspar olha à volta até os seus olhos se encontrarem com os do homem negro ao seu lado, que apesar do frio da noite, teima em vestir apenas uma camisola de alças. Não precisam de falar para se precipitarem em uníssono em direcção ao contentor. Os passos abrandam ao chegarem à porta. É Gaspar, o mais afoito, que espreita para dentro e vê Maria estendida, no chão, com o sangue a escorrer-lhe por entre as pernas. Recua então sem saber o que fazer, é obvio que o bebé vem já a caminho e não dá tempo para chamar nada e ninguém, se é que alguém se pode chamar para assistir um parto em pleno estaleiro numa fria noite de Dezembro, ainda para mais feriado.

Um outro homem se junta a eles, a cor da sua pele, branquíssima, contrasta com a do homem negro. É o outro homem que com eles partilha o contentor, sem hesitar entra no contentor e dirige-se à cama improvisada. Perante o olhar acutilante de José, levanta a manta manchada que cobre as pernas de Maria. Sente o olhar de José na sua nuca e vira-se mostrando o azul claro dos seus olhos. O olhar é firme e decidido, um olhar que quer dizer – eu sei o que é preciso fazer. E assim é, não foi há muito tempo que em condições pouco melhores que aquelas ajudou a sua própria filha a nascer.

No umbral da porta Gaspar e o homem negro, espreitam ansiosos, sem saber como ajudar ou o que fazer. Viram então as costas, deixando a luz sair livre para fora e partem em busca sabe-se lá de quê.

Nem eles sabem, mas sabem que de alguma forma têm de ajudar. Dirigem-se ao contentor ao lado onde pretensamente só deveria haver ferramentas. Mas se o encarregado ali entrasse grande seria a sua surpresa, afinal é lá que têm dormido desde que o Zé recolheu Maria e a trouxe para o contentor-dormitório. Escolhem algo de entre o pouco que têm. Cobertores, uma toalha limpa, pão e um naco de carne pois a fome pode apertar. Juntam tudo, que é coisa pouca, debaixo dos braços e partem de novo para a escuridão. Ao fundo, a guiá-los, brilha o rectângulo iluminado da porta do contentor. Metem-se a caminho, sem pressas. Nenhum deles tem especial vontade de ver o bebé a nascer. Já não se ouvem gritos nem gemidos.

Ao entrarem no contentor vêm Maria com um menino nos braços, José ainda segura a navalha que traz sempre consigo, no bolso, e com a qual acabou de desenhar um umbigo. As mãos muito brancas do ucraniano estão manchadas de sangue, mas ele não se preocupa com isso nem com que o sangue lhe pingue nas calças de ganga. Afinal elas já ostentam muitas outras pingas, de tinta e de lama.

Gaspar fica parado perante aquele quadro. Quer dizer alguma coisa mas as palavras esbarram-lhe na boca como se ela fosse muito pequena para tão grandes palavras. Estende o que trouxe, o mesmo faz o negro - não é ouro nem incenso nem mirra, mas é de boa vontade – acaba por dizer. O negro Baltazar sorri mostrando uns dentes muito brancos. No chão, ainda ajoelhado, Belchior o ucraniano sorri também.

Um novo grito irrompe na noite, agora é Jesus que quer mamar.

texto escrito originalemnte para aqui

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