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2005-01-03

 


O Bairro de Gonçalo M. Tavares

Em 2002 Gonçalo M.Tavares escreveu O senhor Valéry, um livro infantil para adultos, um pouco na linha de Palomar de Italo Calvino, e onde relata os pensamentos originais e os desenhos do senhor Valéry, um homem franzino e solitário. No ano seguinte publica O Senhor Henry, um verdadeiro apreciador de absinto que o inspira para o seu pensamento cientifíco e a sua peculiar filosofia de vida.

No ano que agora terminou, junta os dois últimos vizinhos deste bairro, O Senhor Juarroz e O Senhor Brecht, sendo que este último é, a meu ver, o melhor destes quatro livros-irmãos e os seus micro-contos parecem-me, nitidamente, posts.

Estes não são os melhores livros deste escritor que muito aprecio, mas são perfeitamente hilariantes para quem consiga entrar no mundo bizarro do raciocínio destas quatro personagens ímpares.

O senhor Valéry conhecia apenas duas pessoas. A pessoa que ele era, nesse exacto instante, e aquela que ele tinha sido no passado.
O senhor Valéry dizia:
- Se continuar a viver conhecerei uma terceira pessoa.
E nestas alturas o senhor Valéry sorria, com o seu ar vago e inteligente, caminhava, com passos pequeninos, em direcção ao seu próprio Eu que se encontrava no dia seguinte.

in As três pessoas – O Senhor Valéry


O senhor Henry disse: os celtas acreditavam que se tornasses surdo um homem, esse homem ficaria para sempre teu escravo, porque não poderia recolher ensinamentos de mais ninguém.
... mas isto era no tempo em que a escrita ainda não tinhasido inventada. Nemn o cinema.
... agora é preciso tornar surdo, cegar, cortar as mãos e os pés de um homem se o quiseres como escravo.
... é que nos dias que correm aprende-se por todos os lados do corpo.
... o que na minha opinião é uma falta de higiente.

in A porcaria – O Senhor Henry


A esposa do senhor Juarros começava a ficar irritada.
- Sobes ou não ?!
O senhor Juarroz, porém, nada ouvia e nada via porque estava a pensar:
a invenção da máquina de lavar roupa permite que um cidadão deixe de lavar roupa com as mãos;
a invenção do telefone evita que o cidadão percorra grandes distãncias só para dar um recado;
a invenção do escadote permite que um cidadão não necessite de subir lá acima.

in Objecto no telhado – O Senhor Juarroz


Como acreditava que tinha um anjo protector no seu casaco nunca o despia.
Quando o quiseram recrutar para a batalha ele disse logo que sim, desde que pudesse combater com o casaco vestido. O casaco tem lá dentro um anjo que me protege, justificou.
Claro que as hierarquias militares não aceitaram. Ninguém combate sem uniforme. O homem do casaco insistiu, mas nada feito. Não o aceitaram. Ficou em casa.
Os soldados que entraram na batalha morreram todos.

in O casaco – O Senhor Brecht

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